Perigos em substituir Relações Humanas por Inteligência Artificial
- Daniele Pestana
- 9 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Outro dia li uma matéria que dizia: “Microsoft conversou com 31 mil trabalhadores em 31 países e constatou que, embora a IA seja usada por suas vantagens, muitos a utilizam para evitar interações humanas”.
Os principais motivos relatados na matéria para as pessoas não quererem interagir com outros são: por medo de julgamento e para evitar atritos.
Esse comportamento começa a se tornar perigoso para a nossa saúde mental quando nos fechamos completamente no nosso mundo interno, sem buscar contato com outras pessoas.
Uma vez que somos seres relacionais e somos cegos a nós mesmos, a nossa autoconsciência é construída na relação com o Outro. É no encontro com outra consciência, diferente da minha, que a mediação do desejo acontece. Ou seja, ao entrar em contato com o Outro, a minha autopercepção entra em xeque. A outra consciência traz algo novo, que causa a mudança da minha autocompreensão também. Diante de outra consciência, eu não sou mais o mesmo.
Isso me fez lembrar a frase tão conhecida e marcante do livro O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.
Essa frase define muito bem como são as relações entre humanos, e a importância de termos contato com o que é diferente, para criarmos a nossa autoconsciência. Ou seja, o reconhecimento da alteridade é fundamental para a construção de um eu.

Através das redes sociais, estamos cada vez mais pautados e orientados aos nossos próprios gostos. De fato, não há frustração na relação com redes sociais e com inteligência artificial, uma vez que os algoritmos nos entregam exatamente o que a gente quer ouvir, ler, acessar, e não algo diferente, que vá nos fazer pensar de outra forma e assim expandir a nossa visão. É como se ficássemos fechados na nossa própria bolha “perfeita”.
Enquanto isso, quando vamos nos relacionar com outros humanos há frustração, há falhas, há falta. O Outro foge do nosso controle. Ele não segue os algoritmos do que a gente quer ver e ouvir. Com isso, ele traz algo de diferente do que acreditamos, e é na relação com o que é distinto, que a gente consegue amadurecer, criar e se expandir.
Me preocupa muito ver uma sociedade que está buscando cada vez mais a inteligência artificial para fazer terapia, uma vez que é impossível o autoconhecimento sem interlocução com outra pessoa que sente, que se afeta, que nos frustra, que tem suas falhas também, que pensa de outro jeito e que constrói junto. É essencial que a gente se vincule a outras pessoas para não adoecermos.
Além disso, é importante ressaltar aqui alguns riscos dessa prática, que foram alertados pelo CRP (Conselho Regional de Psicologia de SP): a IA simula compreensão, mas ela não sente emoções; dados sensíveis e totalmente pessoais podem ser expostos na internet; não há responsabilidade ética por parte da IA, ou seja, ela não responde por erros; e não substitui o contato humano e a escuta qualificada.
No texto “Psicologia das Massas e Análise do Eu” de Freud, ele cita a parábola do porco-espinho escrita por Schopenhauer, que dialoga muito com esse medo de julgamento, de atritos e da relação com outras pessoas. A parábola diz o seguinte:
“Vários porcos-espinhos, numa noite de inverno gelado, aproximam-se, procurando aquecimento. Mas os espinhos de cada um ferem os outros, e eles afastam-se, afastam-se para não se espetar. Como não conseguem encontrar o ponto certo, eles se aproximam novamente, e sofrem, e se afastam novamente. Eles acabam por encontrar o ponto certo e se esquentam.”
As relações humanas são exatamente dessa forma. Precisamos de uma distância para não nos espetarmos, mas também precisamos estar próximos para nos aquecermos. Isso é o que nos mantém vivos, nos nutre e dessa forma, nos faz expandir enquanto ser humano.
A vida se constrói nos encontros, nos intervalos, nas pausas, nas relações. Como disse Freud, “Toda psicologia individual é também, ao mesmo tempo, uma psicologia social”. O indivíduo está sempre em articulação com um coletivo. O eu não é uma ilha.
A partir de todas essas reflexões, que tal, hoje, buscar um encontro real?
Uma conversa com alguém, uma troca de olhares para além das telas, um tempo de escuta. São nesses momentos que lembramos que somos humanos, que precisamos uns dos outros para seguirmos sendo e nos expandindo.





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