top of page

Qual a relação entre Arte e Psicanálise?

Atualizado: 23 de jun. de 2025

Semana passada eu estreei no teatro! Sim, estudo teatro há um ano e meio, mas foi a primeira vez que apresentei uma peça para o público.

E quanta coisa passa pela minha cabeça nesse momento, enquanto escrevo esse texto. A emoção de ter vivido tudo isso ainda está aqui.

Esse processo de construir personagens diferentes da minha personalidade, dar vida e voz a outras histórias, é único. E não tem como sair da mesma forma depois de passar por isso.

Decidi começar a fazer teatro a partir de uma provocação da Denise Fraga em 2023. Assisti a uma palestra em que ela disse que estamos caminhando para uma sociedade que não sabe mais como amar, sentir, e como ser feliz. Que vamos precisar ir para a escola para aprender a desenvolver esses sentimentos, aprender a lidar com o Outro, a entender que o Outro não é uma máquina e a ter mais empatia com as outras pessoas. Ela citou diversos exemplos de situações do dia-a-dia que demostram isso, de empresas que já possuem Gestores de Felicidade, e também algumas faculdades internacionais que já possuem cursos voltados para o ensino de sentimentos aos alunos.

Me lembro que fiquei espantada com a sua fala, achei um absurdo, achei graça inclusive. Mas depois, comecei a processar o que ela tinha falado, a reparar mais nas pessoas a minha volta, a reparar mais em mim, em como eu estava em um piloto automático, como eu tratava as pessoas a minha volta, como eu estava me tratando e vi que tudo que ela tinha dito fazia muito sentido.

Hoje, dois anos depois, a fala dela faz mais sentido ainda diante da evolução e difusão da Inteligência Artificial. Estamos cada vez mais fechados, evitando ao máximo lidar com outras pessoas, com o que é diferente.

Tudo parece estar plastificado, inclusive as relações. Tudo por um post no feed. Parece que a desafetação virou uma defesa coletiva contra o incômodo de sentir. E com isso, os afetos ficam cada vez mais sem linguagem, sem lugar, e sem retorno do Outro. Estamos construindo um mundo que não acolhe a espontaneidade e que está no caminho para uma sociedade automatizada (em vários sentidos).

Nesse cenário preocupante em que estamos perdendo o que nos torna únicos, que são as relações, a capacidade criativa que isso nos gera e os nossos afetos diante de outra pessoa, é difícil pensar em como fugir dessa lógica. E foi procurando isso que resolvi começar a fazer Teatro.

Esse lugar que nos faz sentir, que não tem como sair sem experienciar algo, tanto para quem está fazendo algum personagem, quanto para o público. Esse lugar em que o “impossível” se torna “possível”.

O impacto da arte na gente é realmente transformador e é um processo de criação único. O que se cria na gente a partir do contato com uma obra de arte (seja uma peça, filme, museu, livro, etc)? Um mundo de possibilidades, e isso só pode ocorrer na experiência, ao ser vivido.

E o que isso tem a ver com Psicanálise? Tudo. A arte é uma aliada para escutar o sofrimento psíquico, porque é um campo que tem acesso à sensibilidade, ao que me toca, ao que é da ordem do sujeito, representando o universo do discurso.

Sujeito só é sujeito por ser atravessado pelas paixões, sentidos, e não apenas pela razão. Ser humano é um poço de complexidades. E a arte olha exatamente para isso que escapa e que não é nomeado pelo sujeito.

Arte tem o poder de lidar com o não ideal do sujeito, o seu inconsciente, o seu lado subterrâneo, o seu mal-estar, o fracasso das idealizações e padrões de normalidade, e também trazer à tona as transformações culturais, de criar identificações, modos de vida, de se relacionar, e com isso criar esquemas de compreensão do sujeito sobre si. Ela coloca em xeque as contradições da nossa sociedade.

Não à toa Freud e Lacan dialogaram muito com peças de teatro, literatura, e arte em geral nos seus textos. Freud inclusive afirmou: “Poetas e filósofos descobriram o inconsciente antes de mim; o que eu descobri foi o método científico para estudá-lo”.

O teatro foi apropriado por Freud e Lacan na construção e transmissão do conhecimento psicanalítico. Como afirma Libéria Neves em seu texto “Arte e psicanálise – o teatro e o ator”:

“O teatro, com sua riqueza de recursos – a dramaturgia, o texto, o ator, os elementos sonoros e visuais – permite um diálogo estreito com a psicanálise. Freud, pelo visto, percebeu o poder descritivo da convergência entre esses dois campos, utilizando-se, para a construção dos conceitos básicos da psicanálise, de elementos que emanavam do campo do teatro. Assim, “complexo de Édipo”, “cena primária”, “cena psíquica”, “ato” (acting out), “interpretação”, entre outros, são exemplos da percepção desse potencial. Cabe ressaltar ainda a expressão “a outra cena”, apropriada de Fechner, utilizada para distinguir a “realidade psíquica” de qualquer materialidade; ou seja, para dizer do inconsciente.”

Teatro, literalmente, significa “lugar onde se vê”. Podemos pensar na experiência teatral como uma janela por onde nos vemos.

Em uma aproximação com a experiência analítica, o teatro é esse lugar em que a subjetivação do espectador (e do ator também) se coloca e se consolida a partir da relação no “aqui e agora” diante da encenação. É esse lugar em que personagem e espectador comungam de um momento de interação intersubjetiva, e com isso os afetos presentes se desencadeiam e se escoam.

Por isso estar no palco foi tão emocionante. O teatro me permite sentir, elaborar, me afetar, e gerar isso nos espectadores também. E nesse sentido, ele se aproxima da psicanálise: ambos são lugares de escuta, de atravessamento, de criação e de transformação.

No mundo onde os afetos se calam e os vínculos se esvaziam, a arte resiste. Como um convite à humanidade. Um respiro. Um reencontro.

Comentários


Se você está buscando um lugar de escuta, estou aqui para te acompanhar nesse processo.

image.png
bottom of page